sábado, 11 de junho de 2011

O que o casamento Bellward representa realmente?

Twilight: vampiro de 107 anos, visão de casamento
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Essa semana, a impressa está em polvorosa com a notícia do último casamento de celebridades, no qual uma bela plebeia vem aos holofotes para se casar com um charmoso homem de uma grande e ponderosa família. Estou falando, é claro, de Bella Swan e Edward Cullen, os personagens principais do novo filme Twilight deste outono, Breaking Dawn. Embora essas celebridades sejam fictícias, seu casamento está gerando um fervor no nível do recente casamento real: o trailer do último volume de uma série de quarto partes foi lançado essa semana durante o MTV Movie Awards com muito alarido, mostrando cenas das vindouras núpcias, e cópias do convite de casamento do casal vazaram para a imprensa. 
Twilight, como a maioria das séries de fantasia, funciona como uma alegoria, ainda que seja difícil entender do quê. Na superfície, Breaking Dawn transmite uma mensagem de que ‘o amor vence qualquer coisa’, celebrando um casamento revolucionário entre uma humana e um vampiro. Em todos os outros aspectos, o casamento de contos de fadas é material, então as núpcias inter-raciais são ostensivamente a causa de toda a comoção no trailer; afinal, os Cullens são o equivalente vampírico dos vegetarianos (eles nunca bebem sangue humano) e têm coletivamente protegido Bella de desastre após desastre, então Edward é um bom partido. Assim, como humana e vampiro, sua ousada decisão de se casar é vendida como uma máxima sobre o amor ultrapassando todas as barreiras, e naquele nível, é transmitida essa mensagem.
Sob uma inspeção mais de perto, entretanto, a alegoria não se sustenta realmente. 
Nos últimos 50 anos, as grandes mudanças nas regras convencionais americanas sobre amor e casamento têm acontecido sobre dois eixos: raça, com a legalização e crescente aprovação de relacionamentos e casamentos inter-raciais; e gênero, através da crescente aprovação (e legalização parcial) de relacionamentos e casamentos gays, bem como através da aceitação de arranjos mais flexíveis e igualitários dentro dos relacionamentos e casamentos heterossexuais. Raça e gênero são locais de progresso e dificuldade remanescente; a discriminação relacionada a ambos tem estimulado mudanças radicais na instituição casamento, e também permanece como uma proeminente barreira para os relacionamentos. 
Contudo, para todo o enredo do filme, a mensagem que é transmitida sobre gênero é tão antiquada quanto possível: Bella é uma garota muito jovem e convencionalmente feminina que está insuportavelmente atraída por um homem que ela acha que é perigoso, que fácil e frequentemente demonstra mais poder do que ela, e que continuamente a rejeita; ao longo da série, ela abandona família e amigos para estar com ele, até que finalmente ele aceita e se casa com ela, e imediatamente após isso ela (durante a lua de mel, na verdade) fica grávida e arrisca sua vida para carregar até o fim o bebê. Ao longo da história, Bella está em perigo mortal múltiplas vezes, mas é sempre resgatada no último minuto por um de seus pretendentes. A narrativa é quase anacrônica em sua mensagem altamente anti-feminista. 
Os livros e filmes são igualmente suspeitos no que diz respeito à raça. Stephenie Meyer, autora da série Twilight, repetidamente descreve a pele de Edward como tão branca que é translúcida e parece pedra; Bella Swan (cujo nome não tão sutilmente faz referência a beleza e a um pássaro branquíssimo), é revelado, é de feição similar. Não há nada de errado com pele branca, mas a representação da beleza dos protagonistas emanando de suas excepcionalmente brancas peles não é nenhum acidente: vampiros, na nossa cultura popular, corporificam todas as nossas expectativas de aristocracia branca, como descrito no fascinante trabalho de Natalie Wilson, Got Vampire Privilege?: The Whiteness of Twilight (“Privilégio vampírico?: a brancura de Twilight”, em tradução livre). Se a comparação precisa ser feita mais claramente, o contraponto de Edward é o habilmente denominado Jacob Black, que é descrito como tendo cabelo escuro, pele escura e olhos escuros; Black, que dizem ser um membro da (real) tribo Quileute, é secretamente não apenas um animal selvagem, mas, especificamente, um lobo que é capaz de se passar por humano. Seu papel nos livros e filmes é tentar seduzir Bella, a frágil e acolhida protagonista branca, e tentá-la para longe do homem com quem ela está (de acordo com Meyer) destinada a ficar desde o começo. Mas para o andamento da história, Bella recusa suas investidas e se casa com Edward, mas a febre Team Jacob versus Team Edward (leia-se: jogada de marketing) que emergiu dessa rivalidade se tornou conhecida tão amplamente como os próprios filmes. Na realidade, todavia, Jacob nunca teve uma chance; a história não poderia exibir um casamento de conto de fadas sem o pré-requisto: príncipe branco de classe superior.
Assim, enquanto alguém poderia esperar que uma história de amor popular refletisse as preocupações da época, o filme extremamente sexista e racista coloca na surdina o potencial de histórias funcionarem como alegorias para barreiras raciais e de gênero. A moral da história, assim, é que o amor supera tudo… exceto obstáculos complicados e não-sobrenaturais como raça e gênero. Alguém fica pensando o que exatamente Meyer tinha em mente. 
Por todos os elementos sobrenaturais e teatralidade, Twilight é simplesmente um conto com uma narrativa simples, em nada diferente do casamento real: uma jovem mulher toca a vida quieta até que um poderoso homem aparece e a tira de sua vida antiga. A moral da história, para as jovens garotas que compõem a maioria dos fãs de Twilight, é que se elas agirem como uma dama e ficarem quietinhas, um homem importante irá eventualmente reconhecer que elas podem ser esposas adequadas, e eles poderão viver felizes para sempre. Ambos, Twilight e o casamento real, reforçam o velho e cansativo mote de que jovens garotas fantasiam e devem fantasia sobre seus casamentos muito antes de terem sequer idade suficiente para namorarem, e ambos oferecem modelos ridiculamente antiquados do que o casamento deveria ser. 
Entretanto, Twilight não foi feito em um vácuo, e essas histórias são populares porque falam para um momento específico em que os papéis dos gêneros então em fluxo. Garotas heterossexuais se tornando adolescentes hoje, enfrentam um crescente território de namoro não desejável: as mulheres já estão achando mais difícil encontrar os parceiros que foram condicionadas a esperar (como explicado com muito mais profundidade em “Marry Him”, de Lori Gottlieb); muitos maridos em potencial serão menos educados e frequentemente terão menos dinheiro do que elas; até mesmo se casar não é mais garantia de uma parceria futura, pois os casamentos têm mais chances de fracassar do que de ser bem sucedidos;e muitas demonstrações culturais representam o marido comum como um bobalhão (veja Modern Family, King of Queens, Everybody Loves Raymond, ou qualquer um dos filmes recentes de Judd Apatow, entre muitos outros exemplos). Na verdade, a impossibilidade de algum dia encontrar um homem como o vampiro ou príncipe da tela é o que faz esses exemplos tão poderosos para as mulheres jovens: a superioridade desses modelos é projetada sobre mulheres que enfrentam um crescente e difícil mercado de trabalho e perspectivas maritais mais assustadoras ainda, fazendo as jovens mulheres reconsiderarem o caminho para um livro de romance: devotando-se a alcançar a feminilidade e desejabilidade (hetero)sexual, e esperar por um marido desejável que escolha se casar com elas. 
Em sua essência, o fenômeno Twilight é simplesmente uma reflexão regressiva, mas bem oportuna, sobre os futuros românticos crescentemente instáveis que as jovens mulheres irão enfrentar

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The Twilight Saga - Breaking Dawn - Part 2